quarta-feira, 10 de março de 2010

Sessão Fala Viela, um muito obrigada




Retorno ao alojamento José Fornari, diferentemente da útima vez, hoje não chove, a noite tem lua e estrelas, o que faz os moradores saírem de suas casas e virem à sessão.

O filme é "Besouro", fala da cultura, do sofrimento e da luta dos negros no Brasil. Dois séculos depois da abolição da escravidão, pergunto se um dia conseguiremos realmente a igualdade entre os seres humanos; é verdade que avançamos, mas ainda temos muito a combater e conquistar; não só o negro, também a mulher, o homosexual e os de baixa renda são vítimas do preconceito.

Hoje não é apenas um registro que faço, é também um agradecimento, torno-me integrante do "Núcleo de Comunicação Marginal", acho que tenho mais a aprender do que contribuir, agradeço o convite, a aceitação e a confiança depositada em mim.

A admiração e o respeito que tenho pelo trabalho desse núcleo é porque acredito que grandes transformações começam com pequenas atitudes.







Por: Nádia Costa
Fotos: Leonardo Duarte

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Paranapiacaba

O dia amanhece com raios de sol, depois de vários dias de chuva, sinto vontade de ir pra rua, sinto vontade de esvaziar-me do caos, quero contato com o solo, com a terra, então vou a esse encontro com a natureza.
Saio da cidade e parto rumo a Paranapiacaba, vou sozinha em busca de mim mesmo, em busca do que não conheço de mim, do que não conheço do outro, do que não conheço dessa Vila que parece que parou no tempo, um tempo onde as pessoas ainda colocam as cadeiras nas varandas, os vizinhos ainda se conhecem, onde não se tem medo de ser gentil.
De repente a chuva chega, continuo andando, a chuva aumenta, ela minha companheira dos últimos dias, mas agora não estou aflita, não tenho que correr pro trabalho nem pra chegar em casa, sinto a chuva como algo que me limpa do mundo, do caos dos últimos dias.
A palavra solidão me cai bem, me faz leve, sem o peso das cobranças.
Ficaria muito tempo nesse lugar, por algumas horas perco a noção de tempo, me preocupo apenas com o espaço que ocupo ou que não ocupo, possibilidades de idas e vindas.
De repente me vejo nua diante do mundo, sou frágil; não quero fugir de mim, então me olho, me encaro, respiro e prossigo.

Nádia

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Sessão Fala Viela


Em um domingo de chuva chego a um lugar que nunca fui, embora tenha passado inúmeras vezes em frente, isso me faz perceber que não olho o mundo a minha volta, que não observo a cidade que moro, que não enxergo o outro.
Nesse lugar que não é bonito, pelo contrário é feio, mas é um feio de descaso público, de falta de respeito à cidadania com as pessoas que moram ali.
É no alojamento José Fornari que algo acontece de bonito, é a exibição de filme ao ar livre (“3ª mostra de cinema"), exibição essa que acontece quinzenalmente pelo esforço de um grupo de pessoas que resolveram não se acomodar, que resolveram se indignar com as injustiças sociais, e essa indignação vem na forma de arte.
Convidada pelo Núcleo de Comunicação Marginal vou à Sessão Fala Viela pela primeira vez.
A chuva aumenta e o público pega seus guarda-chuvas e continua assistindo, o filme de hoje é “O contador de histórias”, bela escolha, um filme brasileiro, humano e belo, real e emocionante.
Saio transformada porque apesar da chuva o público permanece, saio indignada porque muitos ali nunca tiveram a oportunidade de irem ao cinema, mas saio principalmente com a sensação de que é preciso sair do discurso, de que é necessário arregaçar as mangas pra que o mundo funcione como deveria, para que todos tenham as mesmas chances devemos sair da zona de conforto, do estado de inércia.
São iniciativas como essa que me faz acreditar que ainda vale a pena ser humano.

Nádia Costa
Foto: Christian Piana

terça-feira, 19 de janeiro de 2010


"Sou como você me vê.
Posso ser leve como uma brisa,
ou forte como uma ventania,
depende de quando, e como você me vê passar"

"Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros."

"Que minha solidão me sirva de companhia.
que eu tenha a coragem de me enfrentar.
que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo."

(Clarice Lispector)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Nada mudou em essência


A vida muda a todo instante mas algumas situações permanecem, o ano se inicia com antigas tradições, mesa posta, sonhos renovados, repetimos antigos rituais, me pergunto o porque, se nada mudou em essência, os salários mal dão para os gastos, as pessoas continuam morrendo em
estúpidos acidentes de trânsito.
A comida me chama a atenção, é como o ano que se incia, pronto para ser devorado e esquecido.
Porque se come tanto nesse dia?
Penso nos que não têm nada para comer hoje, talvez não terão nada o resto do ano.
Penso nos que não terão o amanhã.
Nada mudou em essência, esperaremos o próximo ano, comeremos, beberemos, sonharemos, morremos e acreditaremos que no próximo ano tudo vai ser diferente.

Nádia

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Ensaio sobre o Por do Sol

No texto "Rito de Passagem" explico como de repente me interesso pelo por do sol, ou melhor, em fotografá-lo, lembrei-me do texto da Conceiçao Bastos, então resolvi misturar as duas linguagens. Na wikipédia, o por do sol é o momento em que o sol se oculta no horizonte na direção oeste que pode ser considerado como um processo inverso do nascer do sol que é quando o sol aparece no horizonte na direção leste. Ao período do dia em que ocorre o por do sol dá-se o nome de "ocaso". O referido fenômeno apresenta muitas características a serem estudadas, mas devo me ater a alguns aspectos, como segue:
A dinâmica das cores - as cores vibrantes amarelo laranja vermelho se juntam ao lilás e á ultima tonalidade do vermelho que é o roxo machucado e vão se mesclando em infinitas gradações até que a noite se instala - com seu escuro de luzes urbanas, ou com seu escuro de luz de candeeiro na mercearia da vila, ou com o sino anunciando a ave maria e os adolescentes saindo do colégio com seus trinados peculiares numa cidadezinha qualquer.

A geografia das lembranças - neste tópico fiz várias descobertas em diversas fases da vida.Na infância, da calçada de casa, achava que o sol se escondia nas terras de meu avô; na adolescência, da varanda de casa, o sol se punha do outro lado da rua; Na vida adulta em três oportunidades de exílio doméstico, o sol era uma bola vermelha que brincava de esconde atrás de prédios rosas e azuis que eu avistava da janela.


Um país - este é o tópico mais complexo, pois após observar o fenômeno de vários ângulos, localizado em diferentes lugares, constatei que ele também é um lugar, mais precisamente um país ou ainda seja mais certo definir como um não-lugar.

Ritos de sobrevivência - Neste país ou neste não-lugar se pode transitar sem ansiedade, pode se alimentar de cores, de tempo, de lembranças. E de qualquer cidade, de qualquer mirante, numa estrada que você deixa pra trás. quando vai embora numa certa tarde de Sexta feira com destino a São Paulo, Rio de Janeiro ou Barcelona e a sensação de estar despencando, algo se perdendo para sempre em direção ao nunca mais e então o por do sol acolhe o choro, instala esse não-lugar, esse ponto para onde se pode voltar vindo de qualquer lugar; e assim se completa o pulo no abismo, e assim se pode enfrentar outros abismos e assim se pode inventar outros ritos, outros ritmos, outros ensaios.
Um Não-lugar de onde se pode ver a repetição dos dias, as pegadas do sol indo embora, marcando a passagem do tempo em suavidade e violência.
Nádia



Rito de passagem

Hoje, dia 26 de dezembro é vespera de meu aniversário, depois da euforia do natal, uma ótima data para nascer.
Esse ano resolvi ir para uma cidade mais calma, onde não conheço quase ninguém, foi a forma que encontrei para ir em busca de mim mesma.
Resolvi tirar fotos pela cidade, a natureza me chama a atenção, talvez porque eu esteja procurando a essência da vida.
De repente me interesso pelo céu, talvez porque eu busque os meus limites.
No céu descubro o pôr-do-sol, o último dos meus 27 anos, o próximo pôr-do-sol será de um outro ciclo de vida.
Chego aos 28 anos como quem chega do nada, vazia, mas não no sentido de não ter vivido, e sim de precisar esvaziar-se, de ter lugar para o novo. Olho o mundo como uma criança, como se fosse a primeira vez.
Completo o quarto ciclo de 7 anos, me renovo, como os sete dias da semana ou as sete fases da lua, sinto esse momento como um ritual de passagem.
Alguns caminhos eu já comecei a trilhar, mas algo novo se inicia, é como se fosse uma continuação diferente, um outro paragrafo, algo de mim ficou para atrás, talvez amanhã eu não sinta tantas mudanças, mas hoje é o fim de alguma coisa, de uma menina, de um medo, ou apenas uma passagem.

Nádia